Estou sentada com vocĂȘ ao meu lado. A magreza do seu joelho me parece ser nesse segundo a Ășnica coisa que realmente faz o mundo girar. Olho pro seu joelho e quero uma pĂĄgina branca de Word pra escrever "a magreza do seu joelho me parece tĂŁo forte agora que faz o mundo inteiro girar".
Como Ă© bonita toda a sua magreza e toda a sua altura e o seu andar de coqueiro que dança, se espalha, seduz o ar, mas Ă© tĂŁo preso no chĂŁo que ainda mata sedes. EstĂĄ escurecendo e daqui seis horas Ă© ano novo. Preciso começar do zero. Combinei comigo que vou escrever sobre outras coisas e nĂŁo mais sobre essa Ășnica coisa sobre a qual escrevo. Veja vocĂȘ que estava eu com um cara atĂ© ele ler meus textos. Veja vocĂȘ que depois eu estava com outro cara atĂ© ele tambĂ©m ler meus textos. Te conto isso e vocĂȘ me diz "nĂłs somos inseguros demais e queremos uma garota normal, entende?". Passa entĂŁo um velho com um cachorro apesar da placa dizendo que Ă© proibido cachorro na praia. E eu tento desfocar do tanto que o seu joelho me oprime e foco no velho. NĂŁo quero mais a pĂĄgina em branco do Word. A verdade, meu querido, Ă© que estou cagando para o velho e seu cachorro e para a placa e para a praia. VocĂȘ com seu joelho e com seu riso largo demais para o charme de maldade que vocĂȘ tenta impor. VocĂȘ com essa Ășnica gota minĂșscula de suor dependurada no queixo.
VocĂȘ com esse cheiro bom que Ă© mais forte dentro da "canaleta" que vai do centro do seu pescoço atĂ© o meio das costas. VocĂȘ com esse buraco no meio do peito. O que Ă© isso? VocĂȘ levou um tiro? O que Ă© isso que me dĂĄ vontade de te afundar um murro do tamanho da sua pose ou ficar pequena pra dormir de conchinha no centro do seu peito?
Olhando para o cachorro que agora vai longe com o velho, Clarice faria um lindo texto sobre a solidĂŁo humana ou sobre o fim da vida ou sobre a amizade sem palavras ou sobre como Ă© mais bonito quando um ser aceita ser inferior. Os barbudos melancĂłlicos eternamente tentando inventar um novo jeito de ser o antigo. Os barbudos melancĂłlicos do Mercearia fariam um texto sobre esse velho trepando com o cachorro, sobre a tentativa de nĂŁo se vender ao sistema e contemplar a vida numa praia, andando com um cachorro.
Eles fariam esse texto e se celebrariam e se publicariam e se premiariam. E eles sĂŁo escritores respeitados. Eu sou apenas a garota angustiada, de cabeça metralhadora, de tremedeira na existĂȘncia, de maxilares travados de tanto que dĂłi gostar tanto de tudo. Eu sou apenas a garota que tenta ser amada. E sou profundamente amada por alguns meses, atĂ© o garoto segurar firme a minha mĂŁo e dizer "nĂłs somos inseguros e queremos uma garota normal". E entĂŁo eu me pergunto se nĂŁo deveria lobotomizar meu cĂ©rebro pra pensar menos, lobotomizar meu coração pra sentir menos, lobotomizar meu espĂrito pra estar agora menos obcecada pelo seu joelho magrelo. E entĂŁo eu falaria pouco, teria alguma profissĂŁo sonsa dessas que a pessoa fica em cima de apostilas na madrugada ao invĂ©s de estar abaixo das estrelas e vocĂȘ poderia me dar a sua mĂŁo magrela e nĂłs andarĂamos pelas ondinhas secas que fazem bordas de espelho para nossas pernas que seguem juntas.
Ou, se ser escritora fosse forte demais, que eu começasse entĂŁo a escrever sobre o velho e o cachorro. Quem quer bancar a menina que escreve sobre suores e joelhos e cheiros? Eles sĂŁo inseguros e querem uma garota normal, entende? VocĂȘ agora penteia o cabelo pra trĂĄs, a gotinha de suor pinga na areia fazendo uma lĂĄgrima. VocĂȘ se levanta e vai nadar sozinho. Antes, vocĂȘ se esbarra inteiro no meu corpo, como sempre faz sĂł pra me atordoar e sĂł porque Ă© bem legal ter uma mulher como eu prestando tanta atenção em vocĂȘs.
VocĂȘs saberiam melhor o que fazer se eu fosse normal, mas algo dentro dessas covardias machistas simplĂłrias e primatas ainda consegue distinguir como Ă© bem legal ser admirado por uma mulher como eu. Antes de me deixar pirando em toda a sua magreza que flutua pelo mundo como uma mĂșsica leve e impossĂvel de tirar do repeat, vocĂȘ olha pra trĂĄs e diz: "mas deve ter alguĂ©m que nĂŁo tenha medo". E eu jamais poderia escrever sobre o velho e sobre o cachorro, atĂ© porque eles desapareceram e eu nem percebi.
Como Ă© bonita toda a sua magreza e toda a sua altura e o seu andar de coqueiro que dança, se espalha, seduz o ar, mas Ă© tĂŁo preso no chĂŁo que ainda mata sedes. EstĂĄ escurecendo e daqui seis horas Ă© ano novo. Preciso começar do zero. Combinei comigo que vou escrever sobre outras coisas e nĂŁo mais sobre essa Ășnica coisa sobre a qual escrevo. Veja vocĂȘ que estava eu com um cara atĂ© ele ler meus textos. Veja vocĂȘ que depois eu estava com outro cara atĂ© ele tambĂ©m ler meus textos. Te conto isso e vocĂȘ me diz "nĂłs somos inseguros demais e queremos uma garota normal, entende?". Passa entĂŁo um velho com um cachorro apesar da placa dizendo que Ă© proibido cachorro na praia. E eu tento desfocar do tanto que o seu joelho me oprime e foco no velho. NĂŁo quero mais a pĂĄgina em branco do Word. A verdade, meu querido, Ă© que estou cagando para o velho e seu cachorro e para a placa e para a praia. VocĂȘ com seu joelho e com seu riso largo demais para o charme de maldade que vocĂȘ tenta impor. VocĂȘ com essa Ășnica gota minĂșscula de suor dependurada no queixo.
VocĂȘ com esse cheiro bom que Ă© mais forte dentro da "canaleta" que vai do centro do seu pescoço atĂ© o meio das costas. VocĂȘ com esse buraco no meio do peito. O que Ă© isso? VocĂȘ levou um tiro? O que Ă© isso que me dĂĄ vontade de te afundar um murro do tamanho da sua pose ou ficar pequena pra dormir de conchinha no centro do seu peito?
Olhando para o cachorro que agora vai longe com o velho, Clarice faria um lindo texto sobre a solidĂŁo humana ou sobre o fim da vida ou sobre a amizade sem palavras ou sobre como Ă© mais bonito quando um ser aceita ser inferior. Os barbudos melancĂłlicos eternamente tentando inventar um novo jeito de ser o antigo. Os barbudos melancĂłlicos do Mercearia fariam um texto sobre esse velho trepando com o cachorro, sobre a tentativa de nĂŁo se vender ao sistema e contemplar a vida numa praia, andando com um cachorro.
Eles fariam esse texto e se celebrariam e se publicariam e se premiariam. E eles sĂŁo escritores respeitados. Eu sou apenas a garota angustiada, de cabeça metralhadora, de tremedeira na existĂȘncia, de maxilares travados de tanto que dĂłi gostar tanto de tudo. Eu sou apenas a garota que tenta ser amada. E sou profundamente amada por alguns meses, atĂ© o garoto segurar firme a minha mĂŁo e dizer "nĂłs somos inseguros e queremos uma garota normal". E entĂŁo eu me pergunto se nĂŁo deveria lobotomizar meu cĂ©rebro pra pensar menos, lobotomizar meu coração pra sentir menos, lobotomizar meu espĂrito pra estar agora menos obcecada pelo seu joelho magrelo. E entĂŁo eu falaria pouco, teria alguma profissĂŁo sonsa dessas que a pessoa fica em cima de apostilas na madrugada ao invĂ©s de estar abaixo das estrelas e vocĂȘ poderia me dar a sua mĂŁo magrela e nĂłs andarĂamos pelas ondinhas secas que fazem bordas de espelho para nossas pernas que seguem juntas.
Ou, se ser escritora fosse forte demais, que eu começasse entĂŁo a escrever sobre o velho e o cachorro. Quem quer bancar a menina que escreve sobre suores e joelhos e cheiros? Eles sĂŁo inseguros e querem uma garota normal, entende? VocĂȘ agora penteia o cabelo pra trĂĄs, a gotinha de suor pinga na areia fazendo uma lĂĄgrima. VocĂȘ se levanta e vai nadar sozinho. Antes, vocĂȘ se esbarra inteiro no meu corpo, como sempre faz sĂł pra me atordoar e sĂł porque Ă© bem legal ter uma mulher como eu prestando tanta atenção em vocĂȘs.
VocĂȘs saberiam melhor o que fazer se eu fosse normal, mas algo dentro dessas covardias machistas simplĂłrias e primatas ainda consegue distinguir como Ă© bem legal ser admirado por uma mulher como eu. Antes de me deixar pirando em toda a sua magreza que flutua pelo mundo como uma mĂșsica leve e impossĂvel de tirar do repeat, vocĂȘ olha pra trĂĄs e diz: "mas deve ter alguĂ©m que nĂŁo tenha medo". E eu jamais poderia escrever sobre o velho e sobre o cachorro, atĂ© porque eles desapareceram e eu nem percebi.
-Tati Bernardi

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